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O pioneirismo de Manoel Ciriaco da Silva, o Mané Padre: professor, farmacêutico, radialista, historiador e fez o primeiro censo de Tangará da Serra

Alexandre Rolim / Especial DS 02/06/2023 Memória

Em solo tangaraense, além de coordenar movimentos religiosos e realizar o trabalho de animador do primeiro serviço de alto-falante da pequena cidade, Manoel Ciriaco foi funcionário do escritório da empresa SITA

Memória

O pioneirismo de Manoel Ciriaco da Silva, o Mané Padre: professor, farmacêutico, radialista, historiador e fez o primeiro censo de Tangará da Serra

A história de Tangará da Serra e as histórias de cada pioneiro deste rincão – encravado entre as serras Tapirapuã e Parecis – estão diretamente conectadas: os acontecimentos marcantes de cada época determinaram os processos e as perspectivas de como seria essa cidade e em que se tornariam esses habitantes que há mais de meio século aceitaram o desafio de desbravar o então sertão inóspito do Oeste de Mato Grosso. Por aqui desembarcou gente com os mais variados talentos e profissões. Cada um dominando sua área e contribuindo de alguma forma para a construção da cidade que conhecemos hoje.

Lá pelos idos de 1963, em meio a esse turbilhão de gente que chegava, especialmente do Sudeste brasileiro, apeou em solo tangaraense o Senhor Manoel Ciriaco da Silva, natural da cidade de Lucélia, interior do Estado de São Paulo. Este não tinha apenas um talento, não tinha apenas uma aptidão ou uma profissão. Ele conseguia circular por vários ambientes e colaborar das mais variadas formas possíveis, bastava ser chamado ou ter uma oportunidade que o Senhor Mané Padre, como ficou conhecido em razão de uma dessas suas muitas aptidões, estaria lá para somar, para contribuir.

Professor, político, farmacêutico, radialista, etc.

Os moradores mais antigos de Tangará da Serra lembram do homenageado, alguns o conheciam como Manoel Ciriaco e outros como Mané Padre. O que é inquestionável é o respeito, o carinho e a devoção que cada um desses cidadãos têm por essa personalidade. Uns o identificam como Mané Padre pela sua atuação a frente dos movimentos religiosos da cidade; outros lembram dele como o animador do primeiro serviço de alto-falantes do povoado; e ainda como farmacêutico, professor, radialista da Rádio Pioneira; e como agente do primeiro censo da cidade, fazendo o levantamento populacional da antiga Tangará, que na época era uma cidade pequena, mas em pleno desenvolvimento.

Em solo tangaraense, além de coordenar movimentos religiosos e realizar o trabalho de animador do primeiro serviço de alto-falante da pequena cidade, Manoel Ciriaco foi funcionário do escritório da empresa SITA (Sociedade Imobiliária Tupã para a Agricultura), foi professor na Escola Rural Mista de Tangará da Serra, em 1966 e foi farmacêutico na primeira drogaria da cidade.

Na Rádio Pioneira criou e comandou o programa “Pioneiros na Pioneira”, onde procurava resgatar a história deixada por pioneiros que de uma forma ou outra contribuíram para a formação da cidade de Tangará da Serra.

O trabalho levantado em seu programa de rádio resultou na elaboração do livro “Desbravadores Tangaraenses – A fé na terra”, lançado no ano de 1998, um mês após o seu falecimento. É sobre esse homem, Manoel Ciriaco da Silva, Mané Padre se preferir, que estamos falando no especial de hoje da série Memória. Para isso, contamos com a colaboração de sua filha, Daiana Ciriaco, que nos norteou no desenvolvimento da narrativa a seguir.

“Considerado um memorialista da cidade de Tangará da Serra”, destaca o professor doutor Carlos Edinei de Oliveira, presidente da Comissão de Estudos e Pareceres do Instituto Histórico e Geográfico de Tangará da Serra.

A trajetória de Mané Padre

Manoel Ciriaco da Silva, também conhecido como Mané Padre, nasceu em Lucélia, interior do estado de São Paulo, em 03 de junho de 1948. Por lá viveu por aproximadamente duas décadas, onde estudou, foi seminarista e, por isso, o apelido de Mané Padre. Na década de 1960 mudou-se para Cuiabá-MT, onde serviu o Exército Brasileiro por aproximadamente dois anos. No final dos anos 1960 conheceu sua primeira esposa, Maria Félida. Nesse período eles se mudaram para Tangará, morando inicialmente no Distrito de Progresso, que na época era carinhosamente chamado de Princesinha da Serra Tapirapuã. O primeiro e o segundo filhos do casal, Reginaldo Ciriaco da Silva e Ronei Ciriaco da Silva, nasceram em Progresso, em 1971 e 1972, respectivamente.

Nesta mesma época, Manoel atuava como farmacêutico em Progresso e, logo em seguida, ele e a família se mudaram para Barra do Bugres, por onde ficaram por pouco tempo e, de lá, retornaram para Cuiabá, local onde um amigo dele o convidou para trabalhar em uma farmácia no bairro Cristo Rei, em Várzea Grande.

Neste período nasceram outros dois filhos do casal: Jucilei Ciriaco da Silva e Juvenilia Ciriaco da Silva. Em solo cuiabano Mané Padre e a família viveram por mais algum tempo, mudando-se em seguida para Juína. “Mudaram para Juína pra tentar trabalhar com a terra, que era uma paixão dele, foi onde adquiriu um pedaço de terra na comunidade Cristo Rei, zona rural de Juína”, conta a filha de Manoel Ciriaco, Daiana.

Foi nesse período, na região de Juína, que Mané Padre iniciou suas experiências com celebrações religiosas católicas.

“Como já tinha muito conhecimento e afinidade com a igreja aos domingos ele realizava celebrações e cultos”,

contam os familiares. 

Manoel Ciriaco foi o primeiro vice-prefeito de Juína

No início da década de 1980, Manoel Ciriaco ingressou na política, se tornando em 1982 o primeiro vice-prefeito de Juína-MT. Findado o mandato, ele ainda se candidatou a vereador, não obtendo êxito no projeto. Neste mesmo período houve a separação da primeira esposa e um novo casamento, com Elizete Aparecida Riquena, com a qual teve uma filha, Daiana Ciriaco da Silva. O casal tem ainda Rogério Carlos David Filho (filho de criação).

Ainda em Juína, Ciriaco trabalhou na emissora de rádio Educadora de Juína.

O retorno para Tangará da Serra e seu falecimento 1998

No início da década de 1990, Manoel Ciriaco decidiu voltar para Tangará da Serra, mas por aqui permaneceu por pouco tempo, mudando-se para Porto Estrela, onde abriu um negócio: uma casa agropecuária. Ali permaneceu durante o ano de 1992 e início de 1993. Mais uma vez ele regressou para Tangará, onde também trabalhou na Rádio Pioneira.

Neste período ele desenvolvia o projeto “Desbravadores Tangaraenses - Fé na Terra”, que consistia na publicação impressa de reportagens e entrevistas com os primeiros moradores de Tangará, que eram exibidas por ele no programa “Pioneiros na Pioneira”, em todas as manhãs de domingo. Manoel Ciriaco da Silva faleceu em 16 de outubro de 1998, aos 50 anos, no Hospital e Pronto Socorro de Várzea Grande.

Mané Padre na visão da família

Elizete Aparecida Riquena:

“Meu companheiro, esposo e amigo que se foi, mas deixou lembranças boas a família, como também a sociedade tangaraense, com seu trabalho na Rádio Pioneira com o programa ‘Pioneiros na Pioneira’ buscando cada história contada por pioneiros que desbravaram a nossa cidade de Tangará da Serra, pois também fez parte nesse contexto histórico de nossa cidade. As palavras não podem expressar o quanto a sua trajetória de vida foi importante para todos nós, deixando um espaço vazio em nossos corações. Saudades”.

Daiana:

“Meu pai, além de várias profissões, era escritor. Minhas maiores lembranças era de ver ele escrevendo em sua máquina de datilografia e depois lendo para minha mãe, com uma xícara de café na mão, e interpretando cada palavra ali escrita. Não é apenas porque era meu pai, não, mas porque era um homem inteligente, carismático. Perdemos com sua partida precoce. Adorava ver e ouvir as histórias contadas por ele. Contava e interpretava as histórias, e com tantos detalhes que conseguia visualizar perfeitamente a cena a qual ele narrava. Meu pai tinha o verdadeiro dom para escrita e comunicação. Me ajudou a ganhar prêmios de melhor redação na escola”.

Roney:

“Nosso pai tinha uma inteligência acima da média, era inventivo, estilo Professor Pardal. Lembro que fazia alguns objetos como mini roda d'água, catavento, uma vez ele fez uma mesa redonda com centro giratório. Também tocava qualquer instrumento musical, tinha bom ouvido para música. Lia muito, estudava medicina e direito à distância, fazia medicamentos caseiros. Tem gente até hoje em Juína que fala que foi curada pelas garrafadas que o meu pai fazia. Ele também escrevia poemas e letras de músicas, chegou a gravar e ganhar prêmios em Juína como melhor música do Carnaval Municipal, mas o que mais me fazia sentir admiração por ele era a habilidade para falar com as pessoas. Ele se virava com qualquer assunto, nunca ficava de fora de uma conversa porque de tudo ele sabia um pouco”.

A HOMENAGEM

Em 2 de abril de 2008 foi publicada a Lei Municipal Nº 2868, denominando a antiga Rua 25 de Manoel Ciriaco da Silva. O projeto que deu origem a lei é de autoria do então Vereador Pedro Francisco da Silva. A antiga Rua 25 (agora Rua Manoel Ciriaco da Silva) cruza os bairros Jardim Rio Preto, Jardim Shangri-lá e Jardins Uirapuru I e II, entre a Rua 04-A e a Avenida Tancredo de Almeida Neves.

Além disso, projeto de lei de autoria do vereador Sebastian Ramos, propõe a nominação da Sala da Memória homenageando Manoel Ciriaco da Silva. O espaço, que organiza e agrega os registros históricos de Tangará, está localizado no Centro Cultural “Pedro Alberto Tayano Filho” e foi criado pela Lei Municipal 3.103 de 14 de abril de 2009. Manoel Ciriaco da Silva também possui homenagem póstuma na cidade de Juína onde empresta seu nome a uma praça.

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